domingo, 26 de julho de 2026

Frank Bolle: uma vida dedicada às tiras

O lendário cartunista Frank Bolle. 

FRANK BOLLE É UM DAQUELES artistas cujo currículo impressiona. Creio que, em todos os anos que escrevo e pesquiso sobre quadrinhos, especialmente tiras de jornal, nunca achei alguém que trabalhou em tantos títulos diferentes como Bolle. Nascido na Itália, no ano de 1924, ele viria a se mudar com somente cinco anos para os Estados Unidos, para morar com sua mãe, Mary Bolle, no Brooklyn, em Nova Iorque. Em solo americano, Bolle estudou na High School of Music & Art, em Manhattan, onde desenvolveu sua paixão pela arte do desenho. Depois, foi para o Pratt Institute, onde estudou até precisar servir à Aeronáutica em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial.
Quando voltou da Guerra, Bolle passou a atuar em gibis, se juntando a outro cartunista, o gigantesco Leonard Starr. É importante trazer o nome de Starr para a conversa pois, quando Bolle começou a desenhar tiras, foi justamente como um assistente de Starr em seu título Mary Perkins: On Stage [Mary Perkins: Em Ação], que contava a história de uma jovem que se mudava para Nova Iorque buscando se tornar uma atriz. Bolle criava o lápis de personagens e também fazia o letreiramento dos balões.

Quick Quiz! de 14 de novembro de 1965.
Arte por Frank Bolle.

Depois de voltar aos gibis por um curto tempo, Frank se entregou de vez às tiras por volta de 1965, quando assumiu Quick Quiz! [Perguntas Rápidas!], criado por John Uhle. Eram painéis no estilo Ripley’s Believe It or Not! [Acreditem se quiser!, por Ripley], mas, ao invés de curiosidades diretas, os leitores encontravam perguntas e alternativas para as respostas que alimentavam esse conhecimento. No mesmo ano, Bolle também começou a desenhar Children’s Tales [Histórias de Criança], uma tira dominical que trazia aventuras fantasiosas voltadas para o público infantil.

Nenhuma descrição de foto disponível.
Children's Tales de 11 de outubro de 1970.
Roteiro de Nick Meglin e arte de Frank Bolle.

Não satisfeito em já cuidar de dois projetos, Debbie Deere foi adicionada à lista de trabalhos de Frank Bolle em 1966. Essa tira, escrita por Al Jaffee, estrelava uma colunista de jornal que dava conselhos aos leitores, mas se envolvia em suas aventuras pessoais no processo (ao melhor estilo Mary Worth). Porém, em 1968, Gary Poole assume os roteiros e, infelizmente, isso leva a desacordos no direcionamento das histórias.

Debbie Deere de 5 de novembro de 1968.
Arte por Frank Bolle.

De acordo com um artigo no jornal The Palladium-Item, a tira foi descontinuada em 3 de novembro “devido a uma situação inevitável”: “Seis semanas atrás, tivemos de demitir o roteirista. Até tentamos continuar por conta própria, mas as deadlines continuavam sendo um problema. Então, preferimos encerrar a tira”, disse Charles McAdam Jr., do sindicato que distribuía as tiras, McNaught Syndicate. Engraçado notar que o quadro final da tira trazia o vilão da história em andamento demandando: “Matem Debbie Deere! Matem-na agora!” E assim foi feito em 1969. Os leitores nunca souberam o desfecho final da história que estava em andamento.

COM A CHEGADA DOS ANOS 1970, Frank Bolle passou a atuar em Alexander Gate – uma das tiras mais curiosas que já vi. Basicamente, a tira trazia o protagonista que dá seu nome ao título ajudando as pessoas com base em seus… signos. E sempre dando conselhos astrológicos também. Com roteiros de Gene Mora, rodou nos jornais americanos entre dezembro de 1970 e setembro de 1971.

Alexander Gate de 14 de dezembro de 1970.
Arte por Frank Bolle.

Junto com o fim dessa tira, também acabou Children’s Tales e a associação de Frank com o McNaught Syndicate. E foi então que Bolle se juntou a John Prentice para auxiliar na produção de Rip Kirby [Nick Holmes]. A incrível criação de Alex Raymond acompanhava o detetive particular Rip Kirby resolvendo mistérios ao redor do mundo. Quando Raymond faleceu prematuramente, em 1956, John Prentice assumiu a arte ao lado de diversos roteiristas.
Frank Bolle ficaria como assistente na tira por períodos esporádicos entre 1970 até a morte de Prentice, em 1999. Ele seria o artista a fazer o fim da tira, desenhando as últimas semanas, mas assinando com o nome de Prentice.

EM 1977, FRANK BOLLE passaria a trabalhar junto de outro gigante dos quadrinhos para jornais, Elliot Caplin. Caplin foi o criador de tiras como Big Ben Bolt e The Heart of Juliet Jones [O coração de Vera Lúcia], e, em agosto de 77, criou Best Seller Showcase [Best Seller em Destaque], cuja ideia era apresentar adaptações de livros de sucesso, traduzindo a linguagem para os quadrinhos. Bolle alternava a arte de cada história com Gray Morrow e, das 7 histórias adaptadas, ele desenhou quatro. A tira acabou no ano seguinte, em agosto. Em dezembro, uma nova tira surgiria em seu lugar, pela mesma dupla Caplin-Bolle: Encyclopedia Brown.

Best Seller Showcase de 21 de agosto de 1977.
Baseado no livro
 Resgatem o Titanic! de Clive Cussler.
Arte de Frank Bolle.

Mais longeva e bem-sucedida, Encyclopedia Brown nos fazia acompanhar o adolescente Brown, um aspirante a Sherlock Holmes, resolvendo casos semanais que começavam na segunda e encerravam no domingo, com a resposta do mistério, que devia ser resolvido pelo leitor (que recebia a pergunta “Quem foi o culpado?” na sexta e lia a resolução no sábado, além de um caso rápido aos domingos). A semana seguinte trazia um caso diferente. A tira era uma adaptação de uma série de livros infantis. A ideia era ótima e teve seu fim em setembro de 1980.

Encyclopedia Brown de 8 de julho de 1979.
Arte por Frank Bolle.

Em 1981, Bolle também faria uma rápida participação desenhando o Tarzan, por cima das ideias do artista da época, Mike Grell (o mesmo Mike Grell de Lanterna Verde, Arqueiro Verde e Superboy e a Legião de Super-Heróis da DC Comics).
Em 1982, era a vez de Winnie Winkle. Assumindo a tira no dia 20 de junho, Frank só parou quando a tira encerrou, no dia 28 de julho de 1996. Seu estilo casou demais com o drama que a tira implorava. Além de desenhar, a partir de 1985, Bolle começou também a escrever as histórias – tendo a ajuda de Starr para ideias de roteiro. Sobre o final, quando questionado, Frank Bolle disse: “Trabalhei em Winnie Winkle durante 20 anos, e quando me disseram: ‘Você tem 90 dias para encerrá-la’, porque a tira seria descontinuada, fiquei arrasado. Mas, depois que a concluí, nem senti falta dela. Fiquei deprimido porque perdi um bom emprego, mas simplesmente não senti falta do trabalho. Talvez o que eu não sentisse falta fosse da rotina semanal, mas guardo muitas boas lembranças de ter feito essa tira.”

Duas tiras diárias de Winnie Winkle, datadas de
27 e 28 de setembro de 1993. Arte por
Frank Bolle.

E lembram de The Heart of Juliet Jones? Pois bem, em 1989 foi a vez dessa tira ser adicionada ao arsenal do artista. (Eu leio essa tira diariamente e nem sabia que o Frank tinha a desenhado por tanto tempo.) Ele também desenhou a tira até o fim, que foi no primeiro dia do ano 2000.

Duas tiras diárias de The Heart of Juliet Jones,
datadas de 27 e 28 de outubro de 1993.
Arte por Frank Bolle.

NÃO SATISFEITO EM DESENHAR tantos títulos diferentes ao mesmo tempo, Frank ainda assumiu o papel de assistente na histórica Prince Valiant [Príncipe Valente], sendo parceiro de John Cullen Murphy (que foi o artista para os roteiros de Caplin em Big Ben Bolt). A tira dominical exigia um nível absurdo de detalhamentos, mas Bolle não teve medo de desenhar leiautes ou fazer os lápis e ficou nesse trabalho entre 1996 e 2003.
Enquanto isso, outra tira seria em breve adicionada a seu panteão. Em 1999, Brian Kotzky estava cansado de desenhar a tira que herdou de seu pai Alex Kotzky. Começou como assistente e tomou a arte de vez após a morte do pai. Mas o ritmo diário o cansou e ele pediu que o King Features Syndicate encontrasse um substituto. Como The Heart of Juliet Jones já tinha o fim decretado, Apartment 3-G [Apartamento 3-G] achou seu novo herdeiro com facilidade. Frank já tinha 75 anos quando começou, no dia 3 de dezembro.

Duas tiras diárias de Apartment 3-G, datadas de 18 e 19
de junho de 2008. Arte por Frank Bolle.

E se a gente achava que já estava bom o suficiente, Frank ainda disse que conseguia adicionar uma última tira ao seu legado: em 2008, enquanto buscavam um substituto para Frank McLaughlin em Gil Thorp, Bolle desenhou por um mês ao lado de Neal Rubin nos roteiros.

AOS POUCOS, FRANK Bolle foi deixando uma tira por vez para trás, e finalmente se aposentou com quase 90 anos ainda ativo, levando Apartment 3-G até o fim, que aconteceu em novembro de 2015. Nessa época, eu já conhecia e acompanhava a tira. Era clara a dificuldade de Bolle nos desenhos – a maioria dos quadros tinha fundo branco, sem cenário, ou, quando algum cenário existia, era de objetos simples, como quadros, abajures e cortinas – dada a avançada idade, mas ele nunca desistiu (e eu aposto que ainda teria desenhado por mais um tempo). Se ele tinha artistas o auxiliando nessa época, não se sabe, mas não aparenta ser o caso: até o letreiramento indistinto tinha a cara de Frank Bolle. Depois de quase 70 anos de tiras diárias, era a hora de realmente parar.

A última tira de Apartament 3-G, datada de 22 de
novembro de 2015, que também foi a última
tira desenhada por Bolle.

Bolle viria a falecer em 12 de maio de 2020, aos 95 anos. Deixou a esposa, Lori, e o casal de filhos, Laura e Frank, além de uma legião de fãs – me incluindo na lista em uma posição alta.

Parnamirim, entre 6 e 24 de julho de 2026
Rio Grande do Norte, Brasil

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