domingo, 30 de agosto de 2026

“Everything”, por Michael Bublé

Capa do álbum Call Me Irresponsible (2007).

PRINCIPAL SINGLE DO ÁLBUM Call Me Irresponsible, a canção Everything, de Michael Bublé, está sendo aquela que está em loop diariamente nos meus fones.
Bublé escreveu a letra para sua namorada na época, a atriz britânica Emily Blunt. Posteriormente, ele explicou:
Escrevi a música sobre a grande felicidade do amor verdadeiro, mas, ao mesmo tempo, estava fazendo uma declaração sobre o mundo. Estamos vivendo tempos realmente loucos, e eu queria dizer que, não importa o que esteja acontecendo, essa pessoa na minha vida é o que realmente faz tudo valer a pena.
Diferentemente de outros trabalhos de Bublé, essa música se afasta da sonoridade voltada ao big band, trazendo elementos de pop e rock. Ela não possui uma seção de metais e é guiada pelas guitarras. Um piano e um violão conduzem a melodia principal da música, enquanto guitarras elétricas podem ser ouvidas no refrão. A interpretação vocal de Bublé também é diferente de seus trabalhos anteriores; em grande parte de seu repertório, sua voz costuma apresentar grandes mudanças de intervalo, mas, nessa música em particular, ele canta de maneira suave, sem partir para intervalos vocais muito intensos. A canção é comparável ao seu single de sucesso anterior, Home, do álbum It's Time.
O videoclipe da música apresenta cenas de Bublé cantando diante de um microfone, além de mostrar o cantor realizando uma audição aberta para atores e artistas que poderiam participar do vídeo, escolhendo finalmente o candidato certo no final. Na Itália, a música chegou ao topo da parada de singles digitais em abril de 2007, antes de alcançar o primeiro lugar na parada geral de singles mais de um ano depois, em junho de 2008. O cantor Bono (da banda U2) e a atriz Whoopi Goldberg fazem participações especiais no vídeo, aparecendo durante as audições.
Como de costume, deixo a música e a tradução abaixo.


Tudo,
Michael Bublé

Você é uma estrela cadente, você é o carro de fuga
Você é a linha na areia quando eu vou longe demais
Você é a piscina em um dia de agosto
E você é a coisa perfeita a se dizer

Você se faz de desentendida, mas é fofo
E quando sorri para mim, sabe exatamente o que está fazendo
Não finja que não sabe que é verdade
Porque você consegue ver isso quando eu olho para você

E nessa vida louca, e através desses tempos loucos
É você, é você, você me faz cantar
Você é cada verso, você é cada palavra
Você é tudo

Você é um carrossel, você é um poço dos desejos
E você me ilumina quando toca a minha campainha
Você é um mistério, você veio do espaço sideral
Você é cada minuto de todos os meus dias

E eu não consigo acreditar que sou o seu homem
E posso beijar você só porque posso
O que quer que venha em nosso caminho, vamos enfrentar até o fim
E você sabe que é isso que o nosso amor pode fazer

E nessa vida louca, e através desses tempos loucos
É você, é você, você me faz cantar
Você é cada verso, você é cada palavra
Você é tudo

La, la, la, la, la, la, la
La, la, la, la, la, la, la

Você é cada canção, e eu canto junto
Porque você é tudo para mim

Parnamirim, 26 de agosto de 2026
Rio Grande do Norte, Brasil

domingo, 26 de julho de 2026

Frank Bolle: uma vida dedicada às tiras

O lendário cartunista Frank Bolle. 

FRANK BOLLE É UM DAQUELES artistas cujo currículo impressiona. Creio que, em todos os anos que escrevo e pesquiso sobre quadrinhos, especialmente tiras de jornal, nunca achei alguém que trabalhou em tantos títulos diferentes como Bolle. Nascido na Itália, no ano de 1924, ele viria a se mudar com somente cinco anos para os Estados Unidos, para morar com sua mãe, Mary Bolle, no Brooklyn, em Nova Iorque. Em solo americano, Bolle estudou na High School of Music & Art, em Manhattan, onde desenvolveu sua paixão pela arte do desenho. Depois, foi para o Pratt Institute, onde estudou até precisar servir à Aeronáutica em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial.
Quando voltou da Guerra, Bolle passou a atuar em gibis, se juntando a outro cartunista, o gigantesco Leonard Starr. É importante trazer o nome de Starr para a conversa pois, quando Bolle começou a desenhar tiras, foi justamente como um assistente de Starr em seu título Mary Perkins: On Stage [Mary Perkins: Em Ação], que contava a história de uma jovem que se mudava para Nova Iorque buscando se tornar uma atriz. Bolle criava o lápis de personagens e também fazia o letreiramento dos balões.

Quick Quiz! de 14 de novembro de 1965.
Arte por Frank Bolle.

Depois de voltar aos gibis por um curto tempo, Frank se entregou de vez às tiras por volta de 1965, quando assumiu Quick Quiz! [Perguntas Rápidas!], criado por John Uhle. Eram painéis no estilo Ripley’s Believe It or Not! [Acreditem se quiser!, por Ripley], mas, ao invés de curiosidades diretas, os leitores encontravam perguntas e alternativas para as respostas que alimentavam esse conhecimento. No mesmo ano, Bolle também começou a desenhar Children’s Tales [Histórias de Criança], uma tira dominical que trazia aventuras fantasiosas voltadas para o público infantil.

Nenhuma descrição de foto disponível.
Children's Tales de 11 de outubro de 1970.
Roteiro de Nick Meglin e arte de Frank Bolle.

Não satisfeito em já cuidar de dois projetos, Debbie Deere foi adicionada à lista de trabalhos de Frank Bolle em 1966. Essa tira, escrita por Al Jaffee, estrelava uma colunista de jornal que dava conselhos aos leitores, mas se envolvia em suas aventuras pessoais no processo (ao melhor estilo Mary Worth). Porém, em 1968, Gary Poole assume os roteiros e, infelizmente, isso leva a desacordos no direcionamento das histórias.

Debbie Deere de 5 de novembro de 1968.
Arte por Frank Bolle.

De acordo com um artigo no jornal The Palladium-Item, a tira foi descontinuada em 3 de novembro “devido a uma situação inevitável”: “Seis semanas atrás, tivemos de demitir o roteirista. Até tentamos continuar por conta própria, mas as deadlines continuavam sendo um problema. Então, preferimos encerrar a tira”, disse Charles McAdam Jr., do sindicato que distribuía as tiras, McNaught Syndicate. Engraçado notar que o quadro final trazia o vilão da história em andamento demandando: “Matem Debbie Deere! Matem-na agora!” E assim foi feito em 1969. Os leitores nunca souberam o desfecho.

COM A CHEGADA DOS ANOS 1970, Frank Bolle passou a atuar em Alexander Gate – uma das tiras mais curiosas que já vi. Basicamente, a tira trazia o protagonista que dá seu nome ao título ajudando as pessoas com base em seus… signos. E sempre dando conselhos astrológicos também. Com roteiros de Gene Mora, rodou nos jornais americanos entre dezembro de 1970 e setembro de 1971.

Alexander Gate de 14 de dezembro de 1970.
Arte por Frank Bolle.

Junto com o fim dessa tira, também acabou Children’s Tales e a associação de Frank com o McNaught Syndicate. E foi então que Bolle se juntou a John Prentice para auxiliar na produção de Rip Kirby [Nick Holmes]. A incrível criação de Alex Raymond acompanhava o detetive particular Rip Kirby resolvendo mistérios ao redor do mundo. Quando Raymond faleceu prematuramente, em 1956, John Prentice assumiu a arte ao lado de diversos roteiristas.
Frank Bolle ficaria como assistente na tira por períodos esporádicos entre 1970 até a morte de Prentice, em 1999. Ele seria o artista a fazer o fim da tira, desenhando as últimas semanas, mas assinando com o nome de Prentice.

EM 1977, FRANK BOLLE passaria a trabalhar junto de outro gigante dos quadrinhos para jornais, Elliot Caplin. Caplin foi o criador de tiras como Big Ben Bolt e The Heart of Juliet Jones [O coração de Vera Lúcia], e, em agosto de 77, criou Best Seller Showcase [Best Seller em Destaque], cuja ideia era apresentar adaptações de livros de sucesso, traduzindo a linguagem para os quadrinhos. Bolle alternava a arte de cada história com Gray Morrow e, das 7 histórias adaptadas, ele desenhou quatro. A tira acabou no ano seguinte, em agosto. Em dezembro, uma nova tira surgiria em seu lugar, pela mesma dupla Caplin-Bolle: Encyclopedia Brown.

Best Seller Showcase de 21 de agosto de 1977.
Baseado no livro
 Resgatem o Titanic! de Clive Cussler.
Arte de Frank Bolle.

Mais longeva e bem-sucedida, Encyclopedia Brown nos fazia acompanhar o adolescente Brown, um aspirante a Sherlock Holmes, resolvendo casos semanais que começavam na segunda e encerravam no domingo, com a resposta do mistério, que devia ser resolvido pelo leitor (que recebia a pergunta “Quem foi o culpado?” na sexta e lia a resolução no sábado, além de um caso rápido aos domingos). A semana seguinte trazia um caso diferente. A tira era uma adaptação de uma série de livros infantis. A ideia era ótima e teve seu fim em setembro de 1980.

Encyclopedia Brown de 8 de julho de 1979.
Arte por Frank Bolle.

Em 1981, Bolle também faria uma rápida participação desenhando o Tarzan, por cima das ideias do artista da época, Mike Grell (o mesmo Mike Grell de Lanterna Verde, Arqueiro Verde e Superboy e a Legião de Super-Heróis da DC Comics).
Em 1982, era a vez de Winnie Winkle. Assumindo a tira no dia 20 de junho, Frank só parou quando a tira encerrou, no dia 28 de julho de 1996. Seu estilo casou demais com o drama que a tira implorava. Além de desenhar, a partir de 1985, Bolle começou também a escrever as histórias – tendo a ajuda de Starr para ideias de roteiro. Sobre o final, quando questionado, Frank Bolle disse: “Trabalhei em Winnie Winkle durante 20 anos, e quando me disseram: ‘Você tem 90 dias para encerrá-la’, porque a tira seria descontinuada, fiquei arrasado. Mas, depois que a concluí, nem senti falta dela. Fiquei deprimido porque perdi um bom emprego, mas simplesmente não senti falta do trabalho. Talvez o que eu não sentisse falta fosse da rotina semanal, mas guardo muitas boas lembranças de ter feito essa tira.”

Duas tiras diárias de Winnie Winkle, datadas de
27 e 28 de setembro de 1993. Arte por
Frank Bolle.

E lembram de The Heart of Juliet Jones? Pois bem, em 1989 foi a vez dessa tira ser adicionada ao arsenal do artista. (Eu leio essa tira diariamente e nem sabia que o Frank tinha a desenhado por tanto tempo.) Ele também desenhou a tira até o fim, que foi no primeiro dia do ano 2000.

Duas tiras diárias de The Heart of Juliet Jones,
datadas de 27 e 28 de outubro de 1993.
Arte por Frank Bolle.

NÃO SATISFEITO EM DESENHAR tantos títulos diferentes ao mesmo tempo, Frank ainda assumiu o papel de assistente na histórica Prince Valiant [Príncipe Valente], sendo parceiro de John Cullen Murphy (que foi o artista para os roteiros de Caplin em Big Ben Bolt). A tira dominical exigia um nível absurdo de detalhamentos, mas Bolle não teve medo de desenhar leiautes ou fazer os lápis e ficou nesse trabalho entre 1996 e 2003.
Enquanto isso, outra tira seria em breve adicionada a seu panteão. Em 1999, Brian Kotzky estava cansado de desenhar a tira que herdou de seu pai Alex Kotzky. Começou como assistente e tomou a arte de vez após a morte do pai. Mas o ritmo diário o cansou e ele pediu que o King Features Syndicate encontrasse um substituto. Como The Heart of Juliet Jones já tinha o fim decretado, Apartment 3-G [Apartamento 3-G] achou seu novo herdeiro com facilidade. Frank já tinha 75 anos quando começou, no dia 3 de dezembro.

Duas tiras diárias de Apartment 3-G, datadas de 18 e 19
de junho de 2008. Arte por Frank Bolle.

E se a gente achava que já estava bom o suficiente, Frank ainda disse que conseguia adicionar uma última tira ao seu legado: em 2008, enquanto buscavam um substituto para Frank McLaughlin em Gil Thorp, Bolle desenhou por um mês ao lado de Neal Rubin nos roteiros.

AOS POUCOS, FRANK Bolle foi deixando uma tira por vez para trás, e finalmente se aposentou com quase 90 anos ainda ativo, levando Apartment 3-G até o fim, que aconteceu em novembro de 2015. Nessa época, eu já conhecia e acompanhava a tira. Era clara a dificuldade de Bolle nos desenhos – a maioria dos quadros tinha fundo branco, sem cenário, ou, quando algum cenário existia, era de objetos simples, como quadros, abajures e cortinas – dada a avançada idade, mas ele nunca desistiu (e eu aposto que ainda teria desenhado por mais um tempo). Se ele tinha artistas o auxiliando nessa época, não se sabe, mas não aparenta ser o caso: até o letreiramento indistinto tinha a cara de Frank Bolle. Depois de quase 70 anos de tiras diárias, era a hora de realmente parar.

A última tira de Apartament 3-G, datada de 22 de
novembro de 2015, que também foi a última
tira desenhada por Bolle.

Bolle viria a falecer em 12 de maio de 2020, aos 95 anos. Deixou a esposa, Lori, e o casal de filhos, Laura e Frank, além de uma legião de fãs – me incluindo na lista em uma posição alta.

Parnamirim, entre 6 e 24 de julho de 2026
Rio Grande do Norte, Brasil

domingo, 19 de julho de 2026

Nasce a Pilha Mensal

ME JUNTEI AO MEU amigo João Gianzanti e, juntos, criamos o videocast Pilha Mensal.
Todo mês a pilha cresce. E a conversa também. O Pilha Mensal é sobre quadrinhos, filmes, séries, animações, games e tudo o que movimenta a cultura geek. Dois amigos trocando ideias, compartilhando descobertas, debatendo lançamentos, revisitando clássicos — porque tudo isso faz parte da diversão.
No episódio de estreia do Pilha Mensal, mergulhamos no universo da Supergirl! Conversamos sobre a recepção dividida ao filme Supergirl (2026) e tentamos entender por que ele tem gerado tantas críticas do público. Aproveitamos para voltar às origens da personagem nos quadrinhos, explorar a HQ que inspirou o longa, comentar outras histórias marcantes da Garota de Aço e discutir como sua trajetória evoluiu ao longo dos anos. Um bate-papo leve, cheio de referências e opiniões, para quem já conhece a personagem ou quer descobrir por que ela é muito mais do que “a prima do Superman”.
Espero que vocês nos acompanhem! O primeiro episódio está no YouTube (logo abaixo) e no Spotify.

domingo, 21 de junho de 2026

Nana Shogi, por Georg Dunkel

O tabuleiro do jogo Nana Shogi.

NANA SHOGI É A MENOR variante de shogi já criada. Trata-se do menor jogo de tabuleiro com peças e regras baseadas no jogo japonês shogi, um tipo de xadrez. Foi criado por Georg Dunkel em 1998.
O Nana Shogi é jogado em um tabuleiro dividido em nove casas, organizadas em três linhas por três colunas. Cada jogador possui três peças em formato de cubo:
  • 1 Rei convencional (王, Ōshō)
  • 2 peças multifuncionais, cada uma com quatro valores (formas) diferentes.
A peça ortogonal possui os seguintes valores:
  • Torre (飛, Hisha);
  • Carruagem (反, Hensha);
  • Asa de Andorinha (羽, Enu);
  • Intermediário (仲, Chūnin)
A peça diagonal possui os seguintes valores:
  • Bispo (角, Kakugyō);
  • General de Telha (瓦, Gashō);
  • Espada de Gato (猫, Myōjin);
  • Cão (犬, Inu)
Esses valores foram retirados de diversas variantes históricas de shogi:
  • Hisha e Kakugyō do shogi tradicional;
  • Chūnin e Hensha do chuushogi;
  • Myōjin do daishogi;
  • Gashō do makadaidaishogi;
  • Enu do washogi;
  • Inu do tenjikushogi.
As peças se movem e mudam de valor conforme a imagem abaixo:
  • O Rei pode se mover uma casa em qualquer direção;
  • A Torre pode se mover uma casa em qualquer direção ortogonal;
  • A Carruagem pode se mover até duas casas para frente ou para trás;
  • A Asa de Andorinha pode se mover uma casa para a esquerda ou para a direita;
  • O Intermediário pode se mover uma casa para frente ou para trás;
  • O Bispo pode se mover até duas casas em qualquer direção diagonal;
  • O General de Telha pode se mover uma casa para trás ou uma casa para uma das diagonais frontais;
  • A Espada de Gato pode se mover uma casa em qualquer direção diagonal;
  • O Cão pode se mover uma casa para frente ou uma casa para uma das diagonais traseiras.

Relação das peças e movimentos e promoções.

No começo da partida, o tabuleiro está completamente vazio. O jogo começa com os jogadores, alternadamente, colocando seus Reis no tabuleiro. Após a colocação dos Reis, em cada turno o jogador pode escolher entre:
  • Colocar uma peça no tabuleiro;
  • Mover uma peça que já esteja em jogo.
As demais peças podem ser colocadas em qualquer um de seus estados (valores), à escolha do jogador. Quando uma peça que não seja o Rei se move no tabuleiro — capturando ou não uma peça adversária — seu valor muda. As transformações ocorrem de forma cíclica e sequencial:
  • Ciclo da peça ortogonal: Torre → Carruagem → Asa de Andorinha → Intermediário → Torre → ...
  • Ciclo da peça diagonal: Bispo → General de Telha → Espada de Gato → Cão → Bispo → ...
É ilegal:
  • Colocar qualquer peça na casa central do tabuleiro.
  • Dar xeque ou xeque-mate através da colocação de uma peça.
  • Dar xeque-mate quando se possui uma ou mais peças na mão.
Um jogador pode dar xeque-mate por meio de um movimento de captura, desde que sua mão estivesse vazia antes da realização do movimento.
No xadrez ocidental, o afogamento resulta em empate. No entanto, no shogi isso não acontece, pois a filosofia do jogo considera que mover o Rei para uma casa onde ele seria capturado não é necessariamente um lance ilegal da mesma forma que no xadrez. Como o tabuleiro do Nana Shogi é extremamente pequeno, é comum que as peças dos jogadores acabem facilmente em posições difíceis, nas quais não possuem movimentos razoáveis disponíveis e uma situação de afogamento esteja prestes a ocorrer, mesmo havendo peças ainda na mão dos jogadores.

domingo, 31 de maio de 2026

“Everglow”, por Coldplay

A capa do disco A Head Full of Dreams.

ENQUANTO ORGANIZAVA MEUS discos de vinil no meu balcão — que serve como espaço também para café e para guardar meus CDs aqui em casa —, uma das coisas que notei foi que eu tenho muitos álbuns de bandas de origem britânica, em especial para os anos 1980. Level 42, Simply Red, Living in a Box, Duran Duran, The Human League, The Police... A lista é grande e repleta do que hoje você escutaria com facilidade em rádios como Antena 1 e JB FM.
Então, quando penso que a banda Coldplay aparece como minha favorita nos tempos atuais e, depois de pesquisar sobre a história, vejo que ela também é do Reino Unido, uma coisa encaixa com a outra e tudo faz sentido.
Em 2015, a banda lançou seu sétimo disco, A Head Full of Dreams. O álbum teve cinco singles para divulgação. Embora dois deles tenham se tornado extremamente populares — Adventure of a Lifetime sendo a música cujo clipe tinha macacos dançantes (que viriam a se tornar um meme); e Hymn for the Weekend, que ainda trouxe a voz da Beyoncé para ficar ainda mais marcante —, em minha opinião, é um terceiro que se destaca: a música Everglow.
Uma das questões centrais em minhas reflexões agora que alcancei os 30 anos está sendo a perda. Essa música fala sobre o sentimento que permanece depois que alguém importante sai da sua vida — seja por um término, uma separação, uma amizade que acabou. A ideia central não é a dor em si, mas a “luz” que continua existindo por causa das memórias dessa pessoa.
De acordo com Chris Martin, o cantor da banda, numa entrevista em rádio, o termo “everglow” representa aquela sensação calorosa que sobra depois da tristeza: você sofre pela ausência, mas também sente gratidão por ter vivido aquilo. O nome veio de uma expressão que ele ouviu de um surfista e reinterpretou como uma espécie de brilho emocional que permanece após o fim de algo importante.
Dedico essa canção a todos que já passaram pela minha vida e também àqueles que ainda nela permanecem.


“Brilho eterno”,
Coldplay

Dizem que as pessoas vêm,
E que elas se vão
Mas essa joia em particular
Foi mais especial
E mesmo você tendo partido
E com o mundo sendo desconhecido
Eu ainda te vejo
Celestial

Como um leão você correu
E como uma deusa, se moveu
Como uma água, você voou em círculos
Sob um céu com perfeito tom de roxo
Então por que o mundo continua girando?
E por que os carros nunca desaceleram?
Se para mim parece o fim de tudo
Se eu sei que deveria seguir em frente
Mas não consigo deixar você ir

Mas quando sinto frio, frio
Quando sinto frio, frio
Existe uma luz que você emana
Quando estou nas sombras
Tem um sentimento em mim
Um brilho eterno

Como irmãos de sangue
E irmãs inseparáveis
Juramos em uma noite
Que estaríamos juntos pra sempre
Mas a mudança de ventos
E dos cursos da água
Lembram que a vida é curta como a neve
E que vou sentir sua falta

Mas quando sinto frio, frio
Quando sinto frio, frio
Existe uma luz que você emana
Quando estou nas sombras
Tem um sentimento em mim
Um brilho eterno

O que eu faria por mais um momento
Vivo por esse sentimento
Um brilho eterno

Se você ama alguém
Faça com que esse alguém saiba
A luz que você deixou em mim
Um brilho eterno

Parnamirim, 30 de maio de 2026
Rio Grande do Norte, Brasil

domingo, 5 de abril de 2026

“Mesma trama, mesmo frio”, de ANAVITÓRIA

QUANDO ESTIVE PELA última vez no Rio de Janeiro, conheci uma pessoa muito especial durante uma noite de jogos com meus amigos. Era amiga destes amigos. Quando Camila se apresentou, enquanto cantávamos músicas aleatórias ao violão, descobrimos um gosto peculiar em comum: ambos somos fissurados por ANAVITÓRIA. O duo me foi apresentado há alguns bons anos, lá em 2018, e, desde então, as músicas delas são presentes no meu dia a dia. E, conversando com a Camila, descobri que ela, assim como eu, estava viciada em ouvir o disco Esquinas, lançado em 2024. Ouvimos o disco inteiro juntos e ressaltei a ela que uma das canções, intitulada Mesma trama, mesmo frio, era a minha música favorita do álbum.
    Tem anos que escrevo sobre tudo. Em especial sobre o amor. Essa canção tem sido um dos meus refúgios. Abaixo, deixo a letra da música e o visualizer dela.


ANAVITÓRIA
“Mesma trama, mesmo frio”

Sei que somos ensinados
Que no fim da história
A melhor escolha é matar
O outro em vida

Cortar os hábitos, um a um
Até que todos sejam inadequados
E pareçam nunca terem existido
Em dois ou três meses

Completos desconhecidos
Um salto entre a intimidade
E uma conversa de elevador
Sobre temperaturas

Ou nem mesmo isso
E esse roteiro é conhecido
A mesma trama, o mesmo frio
Sei que pode ser difícil

Mas a nossa história
Não quero esquecer das travessias
Das faíscas, dos incêndios
Do desconforto e a timidez
Da nossa primeira transa
E quando eu quis mais uma vez
Mais uma vez, mais uma

Pensar que nós dois
Saberíamos rir disso tudo
E agora já não há mais nada
Que possamos fazer

É o mais doído
É o mais difícil de entender
Quero sair dos círculos
Mesmo que seja estranho no início

Hoje, reli nossas conversas e doeu lembrar
Palavras duras, tanta raiva
Como é que a gente foi chegar aqui?
Como é que a gente foi chegar aqui?

Parnamirim, 4 de abril de 2026
Rio Grande do Norte, Brasil